A NOITE EM QUE DORMI NO DESERTO...

22.8.13 Simone Galib 1 Comments

O pôr do sol em Wadi Rum, momento único no deserto, que fica no sul da Jordânia

POR SIMONE GALIB   FOTOS PATRICIA LIMA


O deserto é um lugar que desperta fantasias, ocupa o imaginário coletivo, tem sempre um quê de cenário de filme ou daquelas histórias de mil e uma noites, especialmente para nós, que vivemos do lado de cá, longe das tempestades de areia, da vida nômade e do silêncio, só quebrado muitas vezes pelo vento ou pelo motor off road dos jipes que hoje substituem os camelos para travessias repletas de adrenalina. Agora, imagine passar uma noite em um local, praticamente intocado pelo tempo ou pela mão do homem, sem ao menos ter planejado nada? Foi exatamente assim que eu e minha amiga, Patrícia Lima -eterna companheira e cúmplice de viagens inesquecíveis- aterrissamos em Wadi Rum, no sul da Jordânia.  Ainda por cima, era lua cheia!
Tínhamos visitado Aman, a capital do país, onde passamos três dias, depois seguimos para Petra (outro lugar mágico, que vai ganhar aqui um capítulo à parte) e, no meio do caminho, o guia perguntou à queima-roupa: "Vocês querem dormir uma noite no deserto em uma tenda beduína que já hospedou até o rei da Jordânia? O sim veio de imediato. Não paramos sequer para olhar no mapa, entrar no Google, saber exatamente onde era, como funcionava tudo ou o que iríamos fazer. Apenas sabíamos que precisávamos pegar algumas mudas de roupa e uma pequena necéssaire. O resto ficaria por conta do destino...
 Depois de duas horas e meia trafegando por uma bem pavimentada estrada, sob um sol escaldante que desafiava até mesmo o ar condicionado do carro e serpenteando por terras áridas a perder de vista, chegamos a Wadi Rum, no sul do país, um local atemporal, esculpido por gigantes pedras de granito e praticamente intocado pela mão do homem. O impacto foi imediato: parecia que tínhamos voltado milhares de anos no tempo para percorrer outra vez alguns cenários ancestrais, até então só desbravados pelos grandes sábios da humanidade. Era como se estivéssemos, de fato, percorrendo novamente os cenários bíblicos.
  Fomos recebidos no Centro de Visitantes, aliás, parada obrigatória para todos que pretendem conhecer o local, ainda hoje habitado por várias famílias de beduínos, que recebem bem quem vem de fora. Há vários acampamentos, mas todos eles mantêm regras específicas para o trânsito no local. A área é preservada e não se entra em Wadi Rum, também conhecido como Vale da Lua, aleatoriamente ou sozinho. Ainda bem!

O cenário de pedras e granitos, construído há milhares de anos pela natureza

 UMA VOLTA DAS ARÁBIAS

 O nosso guia, um senhor falante, simpático e super entrosado com os anfitriões, foi logo nos deixando bem à vontade. Depois daquela poeira da estrada, trouxe uma melancia gelada para aliviar a sede, e o calor foi rebatido com algumas xícaras de chá, exatamente como fazem os beduínos locais. Depois, entramos num jipe para o nosso primeiro contato com Wadi Rum, um lugar de terra vermelha e de muita imensidão. Percorremos trilhas empoeiradas, paramos em alguns lugares para ver antigos registros escritos nas pedras. Subimos e descemos encostas. Pausa para água, muitas fotos e até shopping - sim, tendas no meio do nada vendem alguns produtos típicos do deserto. Compramos duas pedras de incenso de almíscar, embaladas em charmosas latinhas, por dez euros cada!
 Conhecemos também o local que os guias turísticos da Jordânia costumam apresentar com orgulho: a casa que teria sido ocupada pelo T.E Lawrence, que ali montou seu quartel-general durante a Revolta Árabe contra os otomanos na Primeira Guerra Mundial. A história serviu de enredo para o famoso longa épico Lawerence da Árabia, de 1962, com Omar Sharif, filmado quase que totalmente em Wadi Rum. A tal casa hoje é um bloco de ruínas. Mas diante daquela paisagem com tanta história milenar, repleta de símbolos e mistérios, quem estava preocupada naquele momento com cinema?

  
Nosso guia no Centro de Visitantes de Wadi Rum, área preservada

Turistas percorrem os caminhos do deserto; ao fundo, um bebedouro para camelos
Simone Galib e Patricia Lima e as rochas ancestrais, repletas de registros

Depois de duas horas de off road, em cenários de perder o fôlego, chegou a hora de conhecer o "hotel" para passar a noite. Como esse roteiro era totalmente fora do padrão, tudo ia acontecendo em um fluxo natural, com uma surpresa atrás da outra. Lá pelas 16h, chegamos ao Meditation Bedouin Camping, o local que nosso guia havia escolhido de abrigo. Tendas rústicas nos aguardavam e dentro delas, um grupo de turistas de várias partes do mundo também já estavam se familiarizando com o local. No rosto de muitos, a expectativa: como seria passar uma noite no deserto?
  Do lado de fora, o cenário ficou ainda mais fantástico. O sol começava a se pôr, tingindo o céu, de um azul absurdo, com seus tons de laranja, que se refletiam na terra, nas gigantes pedras de granito, já vermelhas por natureza, e que ganhavam um brilho extra.
Há momentos que nos faltam palavras para expressar a magia da natureza. Este era um deles...

   
O beduíno, um dos nossos anfitriões na tenda
As tendas do Meditation Bedouin Camping, em Wadi Rum, onde os visitantes podem dormir


   Enquanto nos deliciávamos com o pôr do sol, os beduínos, nossos anfitriões naquela noite, começavam a preparar o jantar, que costuma ser cozido dentro da areia, de acordo com seus costumes. O ar já estava mais fresco. O sol se foi, mas não houve tempo para escuridão. Uma lua prateada despontou atrás das montanhas, mostrando que a noite seria muito iluminada. A areia, repentinamente, tornou-se branca e mais fria. Deixamos nossas pegadas por lá. Podíamos fazer o que bem queríamos: cantar, andar ou simplesmente gritar. A imensidão era tamanha que quando gritávamos, ouvíamos, depois de alguns segundos, nossa própria voz ecoando do lado oposto, como se inusitados visitantes estivessem nos saudando.
    O resto da noite foi só adrenalina e diversão: jantar típico servido no tapete, chá, alguns acordes da viola beduína, pequenos passos de dança, mistura de idiomas, gente simples -e muito feliz. Dormir na tenda? Nem pensar! O melhor mesmo foi pegar os colchões, colocá-los na areia, se cobrir para enfrentar os ventos da madrugada no deserto, contar as estrelas e adormecer no Vale da Lua, despertando, algumas horas depois, com a sensação de que ainda se estava sonhando!


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