MURAL DAS LAMENTAÇÕES

19.9.13 Simone Galib 0 Comments



  O Brasil está se tornando, dia após dia, um país de frustrações, de desilusão, de descrédito, do deboche - e isso pode ser aplicado em todas as instâncias. A postura do Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira foi mais um duro golpe em qualquer perspectiva de se acabar com a impunidade e a corrupção ou ao menos coibi-las. O ministro Celso de Mello que encerrou o seu voto com a aceitação dos embargos infringentes no julgamento do mensalão, garantindo uma maioria de seis votos pela retomada do julgamento de 12 réus nos crimes de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, provocou indignação nacional, embora estivesse agindo dentro da lei. Ele também deu a chance para alguns condenados, como José Dirceu, o ex-ministro da Casa Civil, de escaparem do regime fechado de prisão. Além de protelar mais ainda a resolução de um processo que já se arrastou mais do que devia no STF.
 Muita gente passou o dia acompanhando o pronunciamento do ministro, que durou duas horas, e no final houve um sentimento coletivo de desencanto e de vergonha. Mas o que aconteceu hoje no Brasil não tem nada de inédito, não causa espanto e era totalmente previsto. Celso de Mello já havia antecipado desde a semana passada o rumo de sua decisão o que, aliás, foi exaustivamente publicado pela mídia.
  Por que esse tamanho desencanto agora se nós já sabemos e sentimos duramente na pele que não podemos confiar na Justiça, até mesmo para resolver os problemas mais simples do nosso cotidiano? Por que tanto espanto se as leis e a indústria dos recursos foram feitas para entupir os tribunais e favorecer os poderosos? Isso acontece aqui diariamente, afeta nossas vidas, relacionamentos, empresas, empregos, famílias. E a impunidade percorre, com maestria, todos os poderes. A Justiça nacional enquanto instituição é uma carroça velha e emperrada há muito tempo. Aliás, isso parece fazer parte das nossas raízes. Então, por que tamanha ressaca cívica diante desses embargos infringentes? Alguém, em sã consciência, achava que eles não iriam encontrar uma brecha jurídica para ganhar tempo?  
  Claro que todos têm o direito de "desabafar" e hoje as mídias sociais viraram um grande mural de lamentações. Muitos manifestaram o seu luto e a indignação por meio de fotos, frases, compartilhamentos. Por outro lado, se tudo isso está acontecendo é porque nós mesmos permitimos. Será que, se as multidões tivessem se reunido em manifestações pacíficas, às vésperas do desfecho do julgamento do mensalão, o resultado teria sido realmente este? Hoje não era um ótimo dia de mobilização geral e de consciência política, praticadas não apenas nas redes sociais? O próprio STF já esperava por isso a ponto de ter reforçado a segurança. Mas os protestos foram pequenos diante da grande indignação manifestada.
 Por que a voz das ruas foi apagada tão facilmente de nossa memória, dando margem a manobras com a legitimidade da lei para perpetuar a impunidade? Motivados pelos jovens, os brasileiros viveram momentos inesquecíveis de protestos em junho e o governo tremeu nas bases, ficou acuado, votou emendas, abaixou tarifas de ônibus... A reação foi imediata. Essa oportunidade nos foi dada. Sim, porque o "grito das massas" -e não de pequenos grupos de vândalos - é uma poderosa arma contra os corruptos, aliás, a única que parece funcionar neste país. Mas a oportunidade também acabou perdida e a preciosa lição, não assimilada. Consciência política também é uma conquista.
 O gigante continua adormecido e os políticos estão cada vez mais acordados. Este, sim, é o verdadeiro luto verde e amarelo. Que pena!    




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