VIRANDO O JOGO

9.6.14 Simone Galib 0 Comments

POR SIMONE GALIB   


 A Copa do Mundo começa em meio a uma chuvarada de críticas, temores, greves e indignação. Mas precisamos juntar os cacos das nossas desilusões, arejar a casa e receber bem os turistas. Esporte é alegria, é adrenalina, é união. E o mundial, um grande evento. O restante? Decidimos nas urnas!

 

  Ando injuriada com tudo o que vem acontecendo no Brasil e especialmente pela forma com que todos começaram a criticar o país. São tantas notícias ruins em tempo integral, um descaso total com os nossos problemas do dia a dia, que não são poucos, uma inabilidade completa por parte dos governantes, que merecidamente perderam o respeito dos cidadãos, milhares deles seus próprios eleitores, além da onda de greves que me parecem totalmente oportunistas, embora as reivindicações das categorias sejam justas. Sem contar com as mídias sociais, que viraram um gigante portal de descontentamento, de desabafos e de piadas. Rimos e debochamos o tempo inteiro da nossa própria desgraça. Falamos mal de nós mesmos. O brasileiro, famoso por ser amável e cordial, está amargurado, cansado. Para onde caminhamos? Parece que o país está navegando em direção a um iceberg, pronto para naufragar, ou se mantém frente a um vulcão, que vai explodir a qualquer momento, com consequências imprevisíveis.
 A Copa do Mundo, um dos mais poderosos e cobiçados eventos esportivos do planeta, chegou a nossa casa, mas continuamos desconfortáveis, incomodados, irritados. Mostramo-nos receosos em vestir o verde-amarelo; estamos indignados com tamanho amadorismo e indisciplina no país sede. Sentimos vergonha de mostrar ao mundo todas as nossas feridas e do que possa a vir a acontecer no decorrer do campeonato. Muitos chegam ao ponto de torcer para que a seleção brasileira perca o mundial para não favorecer os políticos que, na minha opinião, devem ser julgados e condenados nas urnas –e não nos estádios que, aliás, custaram uma
fortuna! Esporte é alegria, é adrenalina, é união. Não pode ser jogado nesse caldeirão de interesses escusos.
 O país do futebol sente frio na barriga, insegurança, indignação, revolta, quer vestir luto e até torce para que não venham muitos estrangeiros gastar seus dólares ou euros aqui. Se estamos assim, como devem estar se sentindo os estrangeiros que já começam a desembarcar? Fico imaginando o temor que lhes assola diante dessa avalanche de desgraças, de crimes, de violências, da falta de serviços eficientes, das obras inacabadas, veiculados pela mídia e particularmente pela internet, na velocidade da luz. São aconselhados por suas embaixadas e pela própria Fifa a tomarem cuidado com absolutamente tudo, afinal estarão visitando um país que exala um clima de “guerra” urbana.

XÔ, BAIXO ASTRAL!

Essa energia de desalento, de falta de perspectivas e de medo vai tomando conta de tudo. É um baixo astral que contamina. Eu, particularmente, temo pela integridade física e moral dos turistas e torcedores. E também torço antecipadamente para que não sejam assaltados, assassinados, violentados e colocados em situações constrangedoras, retornando aos seus países sãos e salvos. Explorados eles já serão naturalmente, assim como nós o somos todos os dias, a partir do momento em que saírem do avião, porque estarão pisando o solo do país com os preços e os impostos mais extorsivos do mundo.
Não sou a favor da forma como o governo conduziu a realização da Copa do Mundo: super faturamento, gastos excessivos e abusivos, incompetência para gerenciar, realizar e concluir as obras, além da utilização de recursos que poderiam ter sido utilizados para resolver os problemas do país, que são milhares, entre outros fatores. Mas, quando foi anunciado, lá atrás, que seríamos a sede houve comoção geral e explosão de alegria. Claro que sabíamos que o quadro que vivemos hoje seria praticamente inevitável. Conhecemos o país, afinal. Mesmo assim, comemoramos, nos alegramos. Tivemos esperanças de dar um salto, de gerar empregos e de transformar o Brasil em uma vitrine para o mundo, de forma positiva. Sonhamos e nos permitimos ser enganados, mais uma vez.

BONS ANFITRIÕES

Além disso, a realização dos megaeventos esportivos, Copa e Olimpíadas, em 2016, trouxe um fôlego novo. Investidores passaram a olhar para o Brasil com maior interesse, marcas estrangeiras se apressaram em abrir filiais aqui, a rede hoteleira começou a se aquecer, milhares de empresários e profissionais se prepararam e uma infinidade de bons negócios se desenhou no horizonte. Bem administrada e tratada com profissionalismo, a Copa do Mundo é, sim, um excelente negócio. E o Brasil tem belezas e qualidades únicas. Por que não explorar o que é bom, o que funciona, o que temos de melhor como fazem os outros países? Por que não sermos anfitriões gentis e civilizados? Não gostamos de nos sentir acolhidos e respeitados quando viajamos ao exterior?

 Portanto, não adianta esbravejar, queimar a bandeira, organizar protestos, de quórum inexpressivo, que só tumultuam a vida das pessoas e depredam o patrimônio público. É uma atitude sem sentido, sem cidadania e sem educação, que interessa a poucos e mostra a infantilidade de um povo que detona a sua própria casa na frente das visitas. O que precisamos fazer é juntar os cacos de nossas desilusões, respirar fundo e transformar toda essa energia negativa em alguns momentos de alegria. Podemos comemorar o gol, sim, vibrar, torcer pela seleção brasileira, como sempre fizemos exaustiva e festivamente à distância. O país está precisando de mais alegria, dessa boa vibração. Afinal, todo o dinheiro já foi investido, não será devolvido, a Copa do Mundo é uma realidade e as seleções e os torcedores não têm culpa de nada. Guardemos os nossos grandes protestos, e toda essa indignação, para outubro, a primavera das eleições, quando legitimamente, e por intermédio das urnas, poderemos mandar de volta para a casa todos esses políticos que nos roubaram a alegria, o orgulho de ser brasileiros e dizer, de peito aberto e num coro cidadão: “Agora chega. O jogo acabou!

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