POR QUE O PARIS 6 FAZ TANTO SUCESSO?

29.7.14 Simone Galib 0 Comments

Isaac Azar no novo Paris 6 Vaudeville, que abriu em junho, na rua Haddock Lobo, a 70 m da matriz

    POR SIMONE GALIB           FOTOS ÉRICO HILLER/VIAGENS S/A

  Isaac Azar não nasceu em berço gastronômico, mas abriu um bistrô, o Paris 6, nos Jardins, que faz o maior sucesso em São Paulo, a cidade mais gourmet do país - com 52 tipos diferentes de cozinha -, funciona 24 horas e é frequentado por gente bonita, famosa, descolada, jogadores de futebol, como Neymar Jr, muitos artistas, boa parte deles amigos do dono da casa, que os homenageia com seus nomes no cardápio, além de turistas de outros estados do Brasil.  A receita deu tão certo, que o Paris 6 já começa a ganhar ares de rede. Azar inaugurou, há um ano, uma filial, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que vive lotada e boa parte dos seus 250 lugares são ocupados pela classe artística carioca, o que transformou a casa em “uma espécie de sucursal do Projac, a cidade cenográfica da  Globo”, como ele mesmo define. Em junho último, foi ainda mais ousado: inaugurou o Paris 6 Vaudeville, na mesma rua Haddock Lobo, a apenas 70 metros da matriz paulista, também aberto dia e noite, para tentar aliviar as três horas de filas de espera. Porém, ele quer mais. E já se prepara para exportar o conceito mundo afora.
O Paris 6, na Barra da Tijuca: 250 lugares e "sucursal" do Projac                                divulgação    

ENDEREÇO DAS CELEBRIDADES

  Carismático, corintiano roxo, comunicativo, muito bem relacionado, cercado de amigos e de sócios famosos, amado por muitos e desprezado por outros, especialmente por alguns críticos gastronômicos, Isaac Azar aprendeu a lidar com a polêmica e com os dois lados da fama, apostando na fórmula que lhe garantiu sucesso em um disputadíssimo mercado:  a divulgação da cultura brasileira, seja no cinema, no teatro ou nas artes plásticas, o que acabou criando uma espécie de cumplicidade com atores, cineastas e astros da MPB, que ali são mais que meros clientes. Seus nomes e fotos estão estampados no menu, com 200 opções, entre entradas, lanches, petiscos, pratos principais e sobremesas.
  Você pode, por exemplo, experimentar os Escargots Bourguignons a Milton Nascimento, os Tartines de Chévre ET Tomates Au Memorable a Luciano do Valle, o Risotto de Morue a Fernando Meirelles ou o Carré de Bouef a Ivete Sangalo, entre muitos outros. Para o craque Neymar, houve também uma criação especial. Isaac o brindou com uma porção de 100 gramas do mais nobre presunto cru espanhol em homenagem ao Barcelona, time do jogador. O nome do prato? Pata Negra a L´Huile D´Olive a Neymar Jr.

A atriz Paloma Bernardi, que ganhou uma sobremesa com seu nome no cardápio do bistrô       divulgação                             

CARDÁPIO CULTURAL

  Sim, a escolha é feita sob medida para o freguês, famoso e habitué. Mas, a cultura brasileira também está sempre presente nesse cardápio. Nas paredes, com décor, inspiração, iluminação e parte do menu franceses, há quadros de pintores, cartazes de cinema, peças de teatro –tudo made in Brazil. “O Paris 6 não é simplesmente um restaurante, mais sim um passeio, um entretenimento. Mais de 20% dos clientes vêm de outros estados. Além da comida, as pessoas degustam cultura”, orgulha-se. Indagado se os artistas e amigos têm privilégios, é categórico: “Não atraio ninguém oferecendo comida de graça. Ele paga como qualquer outro cliente, exceto quando faço parceria com alguma peça de teatro e tenho cerca de R$ 10 mil em ingressos para distribuir nas mídias sociais. É uma maneira de fomentar a cultura”, conclui.
  Mas, se a ênfase é a cultura brasileira, então por que o nome Paris 6? A inspiração vem do 6º arrondissement, o distrito no centro de Paris, entre os bairros de Saint-Germain-des-Prés e Notre-Dame-des-Champs, que tem uma das maiores concentrações de cafés, de bistrôs e de brasseries. Aliás, esse centro cultural parisiense era frequentado, no início do século, por nomes, como o pintor Pablo Picasso, o escritor norte-americano Ernest Hermingway e o filósofo e crítico francês Jean-Paul Sartre, entre tantos outros. Um lugar cheio de história e de muita gente famosa! “Se Wood Allen fala dos artistas [no filme Meia-Noite em Paris], eu também exponho quadros, homenageio Emílio Santiago, José Wilker, o amigo Jair Rodrigues (morto em maio último e cujo grand menu deste ano foi dedicado a sua memória) e Luciano do Valle, que também era frequentador assíduo”, diz ele, relembrando cenas históricas entre os salões. “Gustavo Rosa pintou no próprio restaurante, entre taças de vinho, e Maurício de Souza desenhou um prato para Jair Rodrigues com o personagem Cebolinha”. Apesar de tanta brasilidade, gente de fora também bateu ponto por lá, como Liza Minelli que no aniversário de seis anos da casa, em 2012, foi jantar depois do show em São Paulo e acabou dando uma canja, para surpresa de todos.
                              Com o amigo e craque Neymar Jr                     fotos divulgação                         

O ator Henri Castelli, o jogador Daniel Alves e Murilo Rosa

Murilo Rosa (sócio de Isaac na filial de Orlando) e Caio Castro


DE VOLTA ÀS ORIGENS

  Judeu sefaradim, filho de pai egípcio e mãe de origem polonesa, Isaac Azar, 43 anos, é o caçula dos quatro irmãos homens, todos praticamente com a mesma faixa etária. Ele trabalhava com a família no ramo de concessionária de veículos e foi o primeiro a tentar voo solo, em 2003, optando por atuar no setor alimentício. Começou a importar azeite de oliva, o que lhe exigiu um profundo mergulho nas raízes. “Eu adoro história e vi no azeite um produto, comum e sagrado, para o judaísmo, para o cristianismo e para o islamismo”, diz. Azar viajou boa parte do mundo, pesquisando o produto que tanto o fascinava. Em 2004, tornou-se o primeiro brasileiro especializado em azeite, graduado pela renomada Organizzazione Nazionale Assggiatori Olio di Oliva, na Itália.
   No final desse mesmo ano, abriu o Azäit, também nos Jardins, onde fazia harmonização de pratos com azeite. Não deu muito certo e fechou a casa.  O Paris 6, hoje com oito anos de história, estava ainda em início de jornada.“ Não consegui dar conta das propriedades pela diferença de conceitos”, afirma. Em 2007, ele assumiu o cargo de chef do menu da TAM, em que elaborava pratos à base de azeite de oliva. Essa fase do azeite durou até 2008.   Já a ideia de levar o Paris 6 para o Rio não foi exatamente sua, conta, mas estimulada pelos próprios artistas, como o ator Bruno Gagliasso, o primeiro, logo no início da casa, que ganhou um prato com seu nome no cardápio. Não demorou muito para que Isaac Azar formasse o seu time carioca: além do próprio Bruno, o diretor Jayme Monjardin, o atacante Emerson Sheik e o jogador Paulinho, da seleção brasileira, dividem a sociedade, com toda a gestão feita pelo próprio empresário. A casa já tem fila de espera todos os dias.
  Se, por um lado, Isaac Azar buscou nas raízes dos seus ancestrais o ponto de partida para se dedicar à gastronomia, a base cultural veio de uma outra fonte: a herança genética da mãe, segundo ele, a sua “grande inspiração desde a infância”. O empresário conta que ela é erudita, adora música clássica, desenha, pinta, toca piano, ensinou-lhe vários hobbies, como a pintura, e lhe emprestou muitos livros para que formatasse o conceito do Paris 6. A receita funcionou. Hoje, a sobremesa clássica da casa, o Grand Gateau au Popsicle a Paloma Bernardi – um gateau recheado de morangos, calda de Nutella e um picolé de chocolate italiano - vende mais de 15 mil unidades por mês no eixo Rio-São Paulo.


MUITO TRABALHO E DIVÃ

  Com os negócios se expandindo, três restaurantes para administrar e um celular que não para nunca de tocar, como é a rotina de Isaac? “Trabalho 24 horas, além das quatro linhas”, diz ele, referindo-se ao futebol. Pai de três filhos - duas meninas, de 10 e 12 anos e um bebê de nove meses - ele atribui toda a sua base à mulher Caroline, diretora financeira do Paris 6, com quem está casado há 13 anos e é quem lhe dá a tranquilidade suficiente para administrar o salão, a cozinha, a família e as mídias sociais. Somente o Instagram da casa tem cerca de 194 mil seguidores, ganhando do Mc Donalds, com 174 mil, e ele o monitora pessoalmente.
  Para manter o equilíbrio emocional, seu ponto de apoio é o renomado psiquiatra, psicoterapeuta e escritor Flávio Gikovate (o preferido dos poderosos), com quem faz duas sessões semanais “para ponderar meus exageros e me guiar em decisões importantes”. Isaac se define como um homem muito ansioso, estourado e diz ter melhorado muito nos últimos nove anos. “Esse sucesso todo não seria possível sem Gikovate e Caroline. Ela é o ponto de equilíbrio de toda minha realização pessoal e profissional.”
Cardápio estrelado          Simone Galib
Já com a vida totalmente estruturada, o dono do Paris 6  prepara novos voos e agora quer divulgar a cultura brasileira contemporânea no exterior. Ele vai inaugurar, em dezembro, outra filial, desta vez em Orlando, na Flórida, nos Estados Unidos, tendo como sócio o ator Murilo Rosa. O conceito será exatamente o mesmo do Brasil, ou seja, base francesa e histórias, cartazes de peças e fotos de artistas brasileiros estampados nas paredes . Entre os seus planos, também está a abertura de restaurantes em Miami, Nova York, Londres e eventualmente em Dubai, nos Emirados Árabes. “Quero mostrar ao mundo que o Brasil tem cinema, teatro e produções de altíssima qualidade.”

 
Isaac Azar no Paris 6 da Haddock Lobo, onde tudo começou
 Apesar de todo esse sucesso, o bistrô costuma receber algumas farpas da mídia especializada e de alguns chefs, alegando que o lugar não é barato e o cardápio tem muito pouco de gastronomia francesa. Para Isaac Azar, as críticas refletem opiniões subjetivas. “Não cozinho somente para uma pessoa, ou o crítico gastronômico, mas para 40 mil, que frequentam o Paris 6 em São Paulo e no Rio. Gosto de ser julgado pelo meu público”, rebate. Aliás, nesse quesito Isaac Azar vai muito bem, obrigado!


*Conteúdo também publicado na última edição de Viagens S/A Edição 30



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