CLÁSSICO DA HOTELARIA DE SP, MAKSOUD SE REINVENTA

17.11.14 Simone Galib 0 Comments




O Café Brasserie Belavista, que ainda funciona 24 horas, com cardápio completo     fotos Divulgação  
POR SIMONE GALIB

  Quem vive, viveu ou passou por São Paulo nas três últimas décadas, com certeza se hospedou, participou de almoços, de jantares, de congressos ou eventos de negócios, degustou um chá da tarde servido com requinte, tomou um drink no bar do lobby, sob um teto de vidro transparente, esticou a noite no Café Brasserie Bela Vista, que funciona 24 horas, frequentou o 150 Nightclub, assistiu a shows internacionais inesquecíveis, foi a grandes festas black tie, casamentos ou até mesmo passou a lua de mel no Maksoud Plaza, um hotel que se perpetuou por muito tempo como símbolo do lifestyle e ponto de encontro do hi society na capital, tornando-se um clássico da hotelaria do país, especialmente nos anos 1980. 
 Pioneiro na implantação de conceitos asiáticos, até então desconhecidos pelos brasileiros, como vários restaurantes de culinária distinta (hoje a grande tendência mundial), na contratação de chefs europeus, em exibir obras de arte na decoração e oferecer um serviço cinco estrelas, que não deixava nada a desejar ao das grandes redes internacionais, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre políticos, banqueiros, membros da realeza e grandes celebridades do showbiz, que marcaram a memória de muitos brasileiros.
  Inaugurado em 1979, por Henry Maksoud, engenheiro civil e eletricista, além de empresário (foi dono da revista Visão e da empresa de engenharia Hidroservice), o hotel, de 25 andares e 416 apartamentos, completa em dezembro 35 anos de atividades ininterruptas, passando por diversas fases, algumas crises e muitas reformas ao longo dos últimos tempos. 
A Abadia Beneditina ocupava o terreno de 12 mil m² , onde foi construído o hotel

 Mas, antes de se transformar no ícone da hotelaria de luxo de São Paulo, o terreno de 12 mil m², na alameda Campinas, a uma quadra da avenida Paulista, principal centro financeiro da capital, era ocupado pela Abadia Beneditina, onde viviam freiras enclausuradas. O empresário, que faleceu aos 85 anos, em abril último, vítima de parada cardíaca, comprou o terreno em 1976, depois de muita negociação e uma relação de amizade com a irmandade. “Antes de meu avô falecer, a madre Tereza conseguiu permissão para deixar a clausura e vir almoçar com ele aqui no hotel”, conta Henry Maksoud Neto, hoje no comando do Grupo Maksoud Plaza.
 
Henry Maksoud Neto, que hoje comanda o grupo
Aliás, familiaridade com o local que administra ele tem de sobra. Maksoud Neto, 39 anos, passou boa parte de sua infância e adolescência no hotel, onde começou trabalhar aos 15 anos. Ao lado do avô, foi ganhando experiência nas mais diversas áreas, como controle, marketing, cozinha, sistemas e recursos humanos. Graduado em economia pela Universidade Mackenzie, em 2001, ele se tornou diretor de operações e assumiu este ano a presidência. Hoje, seu grande desafio é consolidar a nova fase do Maksoud, basicamente focado no viajante de negócios, mas sem abrir mão da excelência de serviços, que sempre foi a marca registrada do cinco estrelas.

NOVOS TEMPOS

  Nos últimos 35 anos, o mundo mudou, o Brasil idem, as cadeias hoteleiras internacionais aqui se instalaram e o conceito de luxo no setor, principalmente no universo corporativo, também hoje é outro. “As pessoas não buscam o luxo pelo luxo. O homem de negócios é prático, rápido e objetivo. Não quer champanhe gelada a 90º, mas um quarto confortável, com um bom banheiro e serviços muito eficientes”, afirma. Como desde o início de sua história o hotel sempre realizou congressos, hoje se solidificou como especialista em grandes eventos, especialmente os congressos médicos. Há também uma fidelidade de clientes (70% dos hóspedes são executivos) e do staff - 40% dos funcionários, por exemplo, trabalham há mais de dez anos na casa. Os apartamentos oferecem room service dia e noite e têm sensor de presença, ou seja, a camareira sabe quando o hóspede está ou não no quarto, para preservar sua privacidade. “Se alguém quiser falar com o gerente geral à meia-noite, ele fala. Sou barriga no balcão, atendo 24 horas e respondo pessoalmente a todas as reclamações”, diz Henry Maksoud Neto. O tradicional hotel também não cobra taxa de serviços na hospedagem, nem em seus restaurantes.
 Por ser um empreendimento familiar, sem os recursos das grandes redes internacionais, o Maksoud Plaza precisou se adaptar às novas exigências do mercado, aos poucos, e a estratégia adotada foram as reformas, que ali são constantes. “Não tenho dinheiro. Então, o tempo todo preciso fazer melhorias”, conta. E uma das mudanças mais importantes dos últimos anos foi a ampliação do heliponto, em 2011, o único homologado na região da avenida Paulista, com capacidade de cinco toneladas, acesso exclusivo ao hotel e que também pode ser utilizado pelos não hóspedes para embarque e desembarque rápidos, mediante o pagamento de uma taxa.
  Não por acaso, o clássico da hotelaria de São Paulo é considerado um dos espaços mais disputados e funcionais para a realização de encontros corporativos de empresas e associações de vários setores da economia.  Tem uma área de 5 mil m² exclusiva para eventos, com 38 salas. O velho teatro-auditório, onde tanta gente importante subiu ao seu palco, hoje é um local de palestras, videoconferências e concertos do Cultura Artística. Para eventos mais exclusivos, com um número restrito de participantes, os empresários podem utilizar ainda o Skyline Lounge Club, no 22º andar, com uma vista de São Paulo de perder o fôlego.

GASTRONOMIA, CULTURA E ARTE



  O visionário Henry Maksoud inaugurou o seu grande hotel, há mais de 30 anos, com o conceito que o setor seguiria no século 21, ou seja, reuniu em um só espaço gastronomia de alta qualidade, cultura, lazer e excelência de serviços. E os seus quatro restaurantes até hoje funcionam a pleno vapor. O La Cuisine du Soleil, por exemplo, serve um menu dos quatro continentes. O Café Brasserie Bela Vista – um dos poucos 24 horas àquela época e tão frequentado pelos paulistanos – continua com seu cardápio completo, dia e noite. Para a happy hour há o Batidas & Petiscos Bar, com vasta carta de uísques e cachaças. E, por fim, o Amaryllis, na entrada do hotel, é um dos bares mais movimentados – tanto para quem quer trabalhar ou simplesmente tomar um café, acompanhado de um delicioso brigadeiro, aliás, um dos clássicos da casa. E, por falar em tradição, o hotel ainda serve o chá da tarde, como nos velhos e bons tempos.
 
Obra de arte no lobby, a marca registrada do hotel
Como Henry Maksoud, além de empresário, era um grande apreciador de obras de arte, foi adquirindo ao longo da vida um bom acervo, que pode ser visto ainda hoje por todo o hotel. No lobby, há uma das maiores obras de concreto armada, assinada pela artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi. Com 4,2 metros de altura, ela surgiu de um pedido do próprio Henry à artista, que a batizou de Arrozal de Benguet, uma referência às plantações de arroz das Filipinas.  A ousada obra, que impactou a crítica especializada e a própria hotelaria nos anos 1970, completa 35 anos também em dezembro. O lobby ainda abriga outra mega escultura de alumínio, de autoria do artista japonês Yutaka Toyota, pendendo do teto, do 22º andar até o 2º, iluminada naturalmente pela cobertura de vidro transparente, que até hoje é a identidade desse lendário hotel, o trintão mais charmoso de São Paulo!

 CHÃO DE ESTRELAS
A suíte presidencial Trianon, que hospedou grandes celebridades
O Maksoud Plaza entrou para a história do país ao receber personalidades internacionais de grosso calibre. Por sua suíte presidencial Trianon, cuja diária hoje está em cerca de R$ 10 mil, passaram Frank Sinatra, Rolling Stones, Julio Iglesias, o ator Anthony Quinn, Sammy Davis  Jr., a primeira ministra britânica Margaret Thatcher, conhecida como Dama de Ferro, e o príncipe Albert de Mônaco, entre tantas outras estrelas. A Bela Vista, por exemplo, com uma visão estonteante da região da Paulista, era conhecida como “a suíte de ACM” por ser a preferida do político baiano Antônio Carlos Magalhães. Aliás, o ano de 1981 foi glorioso para o hotel por ter sido o palco dos quatro últimos shows de Sinatra no Brasil.
Outro momento marcante aconteceu em 1992, quando Axl Rose, vocalista da banda Guns N´Roses) atirou da janela de sua suíte uma cadeira por sentir-se irritado com os jornalistas que o aguardavam do lado de fora. Em 1999, o hotel também serviu de cenário para a novela Torre de Babel, da Globo. Henry Maksoud Neto diz que  “sofre até hoje” por não ter conhecido Sinatra, seu grande ídolo. “Tenho paixão por ele.” À época, ele tinha 5 anos de idade.
Os tempos mudaram, o glamour ficou para trás, muitas dessas estrelas que ali estiveram também já faleceram, mas o Maksoud continua sua trajetória na hotelaria cinco estrelas. Maksoud Neto diz que quer reativar o famoso teatro, mantendo uma programação constante. Por isso, busca peças que estejam interessadas em se apresentar ali. O executivo afirma estar ainda a procura de lojas temáticas que queiram se instalar nos amplos espaços do hotel.
 A vida no lendário prédio da Alameda Campinas continua a pleno vapor!

O cantor Frank Sinatra, que fez seus últimos quatro shows no Brasil e se apresentou no hotel

Reportagem publicada na edição de outubro da Viagens S/A




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