SÃO PAULO RECEBE EXPOSIÇÃO INÉDITA

19.8.15 Simone Galib 0 Comments



   Hoje tive uma vivência inusitada. Passei cerca de 45 minutos sem enxergar absolutamente nada, precisando me locomover em ambientes distintos, sem saber exatamente aonde estava pisando, se atravessava uma avenida, derrapava na curva, cruzava uma ponte ou entrava em um bosque. Cada passo era uma aventura com direito a muita adrenalina. Porém, tive a ajuda de um guia muito sensível e habilidoso, que me pegou pela mão diversas vezes, colocando-me no rumo certo. E fui auxiliada o tempo todo por colegas, os quais tinha acabado de conhecer, para percorrer o caminho.


 Fui visitar a exposição Diálogo no escuro, a convite do Unibes Cultural (antigo Centro de Cultura Judaica), que reabriu totalmente repaginado, nesta segunda-feira (17), em um prédio de 12 andares, no Sumaré, em São Paulo. A exposição ocupa quatro ambientes totalmente sem luz, onde somos guiados por deficientes visuais e desafiados a conhecer o mundo com “outros olhos”. Não é uma mostra de arte ou de objetos, mas sim de relações humanas.


 Assustador? Não. Mais do que conscientizar como vivem as pessoas cegas ou com baixa visão, a experiência nos leva a explorar outros sentidos. E o que é mais interessante: mostra que somos nós quem determinamos nossos próprios limites e podemos superá-los, se assim quisermos. Perder a visão ou ter apenas parte dela não significa deixar de enxergar, interagir, sentir, tocar, se emocionar e viver intensamente. Muito pelo ao contrário.

PAPÉIS INVERTIDOS

 Criada há 26 anos, a mostra já percorreu cerca de 32 países, como Alemanha, Argentina, Áustria, Coreia do Sul, Índia, Israel, Itália, Japão e Rússia, entre outros, atraindo mais de 8 milhões de visitantes. E neste momento, 680 mil pessoas estão passando pela experiência ao redor do mundo.

Pausa para uma foto com o professor Andreas Heinecke

  Autor do projeto, idealizado há quase três décadas a pedido de uma amiga com deficiência visual, o professor Andreas Heinecke, diretor da Dialogue Social Enterprise, veio a São Paulo prestigiar a abertura. O objetivo, diz ele, é usar a sala escura para promover a troca de papéis, “porque aqui ficam às cegas os que enxergam e os que vêem são cegos.” Outro foco da experiência, segundo seu criador, é “mudar a cabeça das pessoas, para que elas vejam a si mesmas e o outro.” Um pai que levou o filho cego, terminou a vivência sob forte impacto: “Tive a oportunidade de sentir o que meu filho sente todos os dias.”

 

"Aqui ficam às cegas os que enxergam e os que enxergam são cegos" (Andreas Heinecke)


SEM PRECONCEITO

  Heinecke diz que “no escuro não há religião, cor, credo ou preconceito. Não importa se você é gordo, magro etc. Ninguém é julgado pelas aparências e no escuro somos todos iguais. Temos de confiar no outro, porque sem ele não podemos fazer nada”. E essa liberdade de preconceitos, ou estereótipos, estimula um diálogo aberto, onde é muito mais importante ouvir do que falar. Durante todo o trajeto, as placas de sinalização se resumem a esta frase: SIGAM A MINHA VOZ
  
  Além de promover essa interação humana, o projeto também cumpre o papel de inclusão social. O mexicano Pepe, que é guia máster e veio a São Paulo para trabalhar na multissensorial vivência, disse que a atividade, exercida por ele há oito anos, transformou radicalmente a sua vida. “Deixei de ser dependente e alcancei a total independência graças ao contato com outros cegos e ao fato de me sentir útil à sociedade”. Hoje, ele viaja o mundo todo, comanda a própria empresa de recursos humanos e ainda atua como coach no mercado corporativo.

  
 Percorrer essa mostra interativa, às cegas, representa muito mais que um programa cultural entre tantos da cidade. Não vou contar todos os detalhes porque cada um deve ter a sua própria experiência e impressões. Só posso dizer que é uma vivência existencial, de gratidão, principalmente, depois, quando abrimos os olhos lentamente e enxergamos a luz.


SERVIÇO


Diálogos no escuro ficará em cartaz até fevereiro de 2016.

Hoje (27/8) e amanhã 28/8) participa da Virada Sustentável e tem entrada franca. Nesta quinta, o horário é das 15h às 16h, e na sexta, das 14h às 15h, para grupos de 40 pessoas em cada dia. Chegar com 30 minutos de antecedência.

Unibes Cultural - rua Oscar Freire, 2.500, ao lado da estação Sumaré do metrô.
Ingresso: R$ 24,00 e R$ 12,00 (meia entrada e para deficientes visuais). Grátis às terças-feiras. 



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