VALENTINA, OS PEDÓFILOS DE PLANTÃO E A (IR) RESPONSABILIDADE DAS FAMÍLIAS

23.10.15 Simone Galib 0 Comments


  O caso da menina Valentina Schulz, de 12 anos, que recebeu mensagens ofensivas no Twitter após sua estreia no programa Masterchef Júnior, da Band, na terça-feira (dia 20), mostra como foram perdidos o respeito, a ética e os valores nesses tempos contemporâneos de muita conectividade. E, principalmente, o quanto as crianças e jovens estão cada vez mais vulneráveis a todo tipo de assédios, os quais podem comprometer suas histórias de vida.
  Valentina (na foto acima com o chef Erick Jacquin) é apenas uma criança bonita, meiga, que apareceu na TV, de avental e rabo de cavalo, porque gosta de cozinhar. Não havia nada que denotasse qualquer conotação sexual em sua imagem ou em seu comportamento. Mas, imediatamente sua conta foi alvo de mensagens de homens descompensados, ofensivas a qualquer mulher adulta. O que dirá para uma criança?
   Alexandre, o pai da garota, disse ao portal IG que a família já estava preparada para o assédio, havia até contratado uma pessoa para monitorar a conta, “mas não esperávamos encontrar tarados. Teve gente que até pediu que ela mandasse uma foto nua.” O Twitter se pronunciou oficialmente, informando que as contas envolvidas no caso foram excluídas. “Temos uma política de tolerância zero para a exploração sexual das crianças”, disse o site.
  Essa história merece uma discussão mais ampla. Há milhares de crianças sendo expostas diariamente nas redes sociais, o campo de atuação preferido dos pedófilos e cia ilimitada. Alguns pais acreditam que esse tipo de situação jamais atingirá os seus próprios filhos. Será que não? Será que enquanto você lê esse post seu filho não pode estar teclando em área de risco?
  Existem ainda centenas de casos de assédio sexual, inúmeros deles com consequências irreparáveis à vida emocional da criança ou do adolescente, que são divulgados exaustivamente pelos programas policiais de TV, pelas emissoras de rádio e nas páginas ou sites que combatem a pedofilia infantil. Mas eles não viralizam na rede; estão banalizados. Parece que as famílias colocaram vendas nos olhos para não enxergar o que está bem diante do seu nariz!
Os participantes do Masterchef Júnior                                                                                   fotos reprodução
XPOSIÇÃO EXAGERADA 
 Porém, um programa de gastronomia infantil, com a participação de meninos e meninas entre 9 e 13 anos, no horário nobre da TV aberta, dá muito mais visibilidade. E o caso de Valentina gerou opiniões de especialistas na mídia e comentários indignados dos internautas nas redes sociais, o que considero, de certa forma, positivo para mostrar o quanto os jovens estão vulneráveis e desprotegidos.
 Claro que a menina não deveria, de forma alguma, ter sido alvo desse tipo de mensagens. Crianças sempre apareceram na televisão, sem problema algum. Quantas atrizes e atores de sucesso não iniciaram suas carreiras assim? Mas, hoje os tempos são outros – muito mais perigosos. Valentina não foi a primeira vítima dessa realidade cruel e, com certeza, não será a última! Há centenas de “valentinas” sendo bombardeadas o tempo todo.
EROTIZAÇÃO PRECOCE
  O fato é que as crianças estão cada vez mais “erotizadas”, superexpostas em campanhas publicitárias, na internet, nos canais do Youtube, no Snapchat, no Facebook ou no Instagram, fazendo o papel de adultos em suas performances e ganhando dinheiro com milhares de seguidores, algo incentivado, aliás, por seus próprios pais. São eles que, muitas vezes, incentivam os filhos a se tornarem estrelas mirins na rede, administrando suas carreiras precoces.
 São eles que gravam os vídeos e os compartilham. E são eles também que, com esse tipo de atitude (embora não seja esta a intenção) , transformam os pequenos em suculentas iscas no gigantesco labirinto da web, um lugar de segurança zero até mesmo para os adultos mais experientes.
  Basta dar uma olhada nas mídias sociais para comprovar o grande número de fotos infantis, postadas diariamente. Estima-se que 1 milhão de imagens de pornografia infantil circulem na web. Há pais que chegam ao absurdo de filmar (ou fotografar) o parto para compartilhar com milhares de pessoas, desconhecidas e das mais diversas índoles, um momento tão especial na vida de uma mulher, que é a maternidade.
  Mas, infelizmente, as crianças do século 21 são “mostradas” desde a barriga. Hoje, vídeos ou fotos do feto em formação da ultrassonografia vão parar na rede (sinceramente, a atitude mais sem noção que já vi). Os antigos álbuns de bebês, com os primeiros passos, o primeiro dentinho, a festa de um ano... e todas aquelas cenas lúdicas da infância viraram timeline do Facebook, com centenas de comentários, curtições e compartilhamentos.
  Qual o objetivo disso? Ganhar likes, exibir a família ou incentivar cada vez mais o apetite voraz dos pedófilos e de pessoas com desvios comportamentais, cujas mentes doentias se alimentam da visualização e da fantasia? De quem é a culpa por tamanho assédio sexual às crianças? Só da mídia, da publicidade, dos aplicativos, da tecnologia? Qual o outro lado da moeda, ou seja, a responsabilidade da família? Alguém já parou para avaliar isso?
  Se as crianças são expostas desde o berçário e a partir dos 2 anos de idade estão com o smartphone da mãe ou o tablet do pai na mão, é óbvio que essa cultura acaba se incorporando naturalmente ao seu comportamento futuro. Na pré-adolescência, postam as suas selfies, de salto alto e batom vermelho (no caso das meninas), tentando agir como mais velhas em poses frente ao espelho, mas sem a mínima estrutura emocional para aguentar o tranco que vem depois.
  Afinal, os pedófilos, ou “tarados” (que tanto surpreenderam o pai de Valentina) estão sempre em alerta, farejando, assistindo TV, buscando adrenalina. E o que é mais assustador: os seus estereótipos não correspondem necessariamente à imagem de um criminoso. Eles são médicos, advogados, professores, policiais, empresários etc etc. Colecionam fotografias e vídeos, agem rápido e não vão pensar duas vezes em assediar, ou caçar, “sua presa”.
 MAIS CAUTELA, POR FAVOR
  Muitas garotas entram nos sites de relacionamento com perfis e fatos falsos, passando-se por adultas, para “brincar” de namoro virtual. Inventam histórias, marcam encontros e algumas conseguem inclusive enganar por um bom tempo os homens mais velhos, que chegam a viajar para conhecê-las. Quando a bomba estoura, a família faz cara de espanto, diz não acreditar que sua menina tivesse esse tipo de comportamento e chama a polícia.
  Não teria sido melhor dar um pouco mais de atenção às atividades da filha (ou do filho) na internet? Não defendo aqui a invasão da privacidade de ninguém, e sou super a favor da tecnologia que nos trouxe imensos benefícios, facilitando a comunicação entre as pessoas.

CONTEÚDO IMPRÓPRIO  
 Mas, no caso de crianças e adolescentes, ter consciência dos perigos a que estão sujeitos é uma atitude de bom senso e que exige cautela por parte de seus pais ou responsáveis nessa frenética era digital. Um estudo norte-americano (de 2009) revelou que 53% dos meninos e 28% das meninas, entre 12 e 15 anos, assistem a cenas de sexo explícito na rede. 
Alguns perguntam: como vou controlar 24 horas as atividades online de meu filho? Há softwares específicos para monitorar laptops ou celulares, bloqueando sites suspeitos ou não recomendados a menores. Existem ainda muitas formas de saber com quem estão interagindo nas redes sociais, quem são os amigos nos grupos do whatsapp, principalmente quando seus filhos passam muito tempo sozinhos, trancados no quarto, ou dizem que vão dormir na casa de um amigo. Mas, segundo mostrou a pesquisa, apenas 28% dos pais usam filtros e no caso dos celulares, esse índice é ainda menor, de 16%.
  Além disso, hoje qualquer adolescente pode fazer um perfil nesses sites de relacionamento, cujos anúncios, repletos de homens mais velhos e sarados, ou de mulheres lindas e sensuais, são cada vez mais exibidos na internet e, o que é mais grave, estão dentro dos aplicativos que os jovens utilizam, tanto no Android quanto no IOS.
 Vale lembrar que na maioria dos casos as fotos mostradas na propaganda são de modelos contratados e que não correspondem à realidade das pessoas reais inscritas nesses sites. Basta um adolescente curioso clicar no link para fazer um perfil rápido pelo próprio celular e começar a interagir, entrando em situações que podem lhes trazer consequências imprevisíveis.

 LINGUAGEM VULGAR E SEM FILTRO
  Mesmo que não façam um perfil, esses adolescentes têm livre acesso às salas de bate papo de portais importantes, nacionais e internacionais, que só pedem um nick name e a porta está aberta. Aliás, são nesses chats (com salas reservadas para conversas e uso de webcam) onde atuam, dia e noite, homens e mulheres, de intenções duvidosas – e perigosas.
 Estejam certos que poucos estão ali para fazer amigos, jogar conversa fora ou arrumar namorados. Os pedófilos, entre outras tantas categorias, são habitués nessas plataformas e nas redes sociais, consideradas campos férteis de fetiches aos seus propósitos.
 Além do mais, as conversas nos chats têm uma linguagem chula, extremamente vulgar, cujo teor fica deslizando pela tela o tempo todo - um conteúdo que normalmente seria considerado impróprio para menores e que deixa até os adultos constrangidos. Só que não existe nenhum tipo de filtro ou controle. Muitos garotos e garotas mentem a idade para iniciar uma conversa com gente mais velha e acabam marcando encontros, passando informações pessoais e se envolvem em grandes encrencas porque o “caçador” está online.


LIGAÇÕES PERIGOSAS
 Escrevo isso com propriedade e total consciência, porque nos últimos quatro anos participei, como jornalista, de uma ampla pesquisa feita por psicólogos para avaliar o comportamento das pessoas, das mais diversas idades e continentes, na internet. No decorrer do estudo, também teclamos com garotas, na faixa dos 15 anos, para entender melhor essa questão do assédio infantil. Fiquei chocada pela desenvoltura com que essas adolescentes se expõem, pelos diálogos que mantêm com os homens e com as histórias que contam. Resumo da ópera: nunca o caminho esteve tão aberto e amplo para os pedófilos.
 Confesso que não foi nada fácil vivenciar essa experiência, embora sempre buscasse manter a postura profissional (que exige razão, e não emoção) e que me trouxe um grande aprendizado. Mas a situação em muitos casos era tão bizarra, tão deprimente, que eu chegava a sentir pontadas no coração e ficava com o estômago embrulhado, porque também sou mãe. Foi praticamente impossível não pensar: e se fosse com a milha filha?
 NÃO TENHAM MEDO DE AGIR
   Portanto, pais, não sintam qualquer receio de impor limites e de serem “mais enérgicos digitalmente” para lidarem com a chamada geração selfie. Protejam seus filhos, não permitindo que ajam com tanta liberdade no mundo online. Procurem preservá-los e observá-los nas redes sociais, conversem abertamente com eles sobre o assunto, e principalmente não os exibam tanto, para que não tenham a infância roubada e nem percam os melhores anos de suas vidas pela falta de atenção e de orientação.
  Para vocês e para as vovós que vivem postando fotos, as imagens de seus filhos e netinhos representam crianças lindas e inocentes. Mas os pedófilos não os veem assim. E o caso da menina Valentina ilustra muito bem isso. 
  Monitorá-los no mundo virtual não significa andar na contramão da história, ser pais antiquados ou repressores. Ao contrário: é um gesto de amor, que pode prevenir uma grande dor lá na frente – não apenas para vocês, mas principalmente para eles.
  Fiquem certos que esse será um grande passo no combate à pedofilia, evitando que seus filhos passem por situações violentas – e desnecessárias! Não adianta só fazer comentários indignados nas mídias sociais.
  É preciso agir. E rápido!